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agosto 10, 2015

Desatenção

    Se você precisa me perguntar, não esteve olhando o suficiente. Eu dei todos os sinais o tempo todo, nas filas, nos bancos e nos veículos. Eu disse palavras perdidas que significaram mais do que livros, disse nas avenidas, nos bares, nas casas. Se você ainda tem dúvidas, não esteve me ouvindo por muito tempo. Eu gritei todos os planos do alto do prédio onde você mora, eu cantei aquelas músicas sem fim sobre a gente. Por todo lugar que passamos, uma pista mínima ficou, caso volte para refazer o caminho. Mas se ainda está aqui me perguntando, não quis andar nenhum pouco pra trás. Se não pode voltar, não pode seguir em frente também. Se eu seguir sozinha, não questione o motivo. Esse é mais um daqueles textos que você não lê, mas deveria. Essas são mais uma daquelas palavras que você não escuta, mas eu ainda digo. Tenho um tanto de sentimento que vai ser empurrado numa caixa para que caiba, vou largar por aí. Traço minha rota de fuga e em silêncio faço uma festa de despedida, pra não dizer que fui sem dizer adeus algum. Se você não souber achar, é porque já me perdeu há muito tempo, é porque o acaso esteve certo sobre vestir as minhas botas e andar pra longe.


Flavia Andrade

março 11, 2015

A Despedida


    O olhar foge da cama, ignora a cômoda e sequestra a moça. Ela, na frente do espelho, enxergando pouca beleza pela baixa autoestima tenta passar despercebida. Mas ele a olha, faz memórias fotográficas para o sonho de mais tarde, para quando o espaço esquerdo da cama ficar vazio. A despedida é silenciosa enquanto os dois se arrumam, ocorre um beijo estalado no centro do quarto quando se cruzam. Os passos e os braços estão vagarosos em cada movimento para que aqueles últimos minutos durem um pouco mais. As roupas deslizam pelo corpo querendo voar para longe outra vez, mas vão ficando apenas acomodadas. Ao fim, parecem, frente a frente, prontos, arrumados e vestidos enquanto por dentro estão despreparados para a saudade que sentirão. O olhar dele a encara profundamente ainda feliz, o olhar dela desvia todo triste. Eles são, ao mesmo tempo, ternura e lamento. São, juntos, mais do que nunca poderão ser sozinhos. Andam trocando suspiros pelos corredores, alcançam as calçadas, atravessam as ruas. As mãos dadas estão muito mais firmes que a coragem de seguir com os dias que estarão longe, as mãos dadas se aquecem como se pedissem para não mais esfriarem. Os olhares escapam para céus e terras, para todo o clima que os acompanha até ali. Ali onde o último abraço em um longo espaço de tempo acontece. Onde os dois sorriem com custo. Onde ambos sabem que precisam tomar caminhos diferentes. Eles ainda não disseram palavra alguma e não dirão, suas vozes talvez estejam embargadas e o aquecimento dos corpos significam mais do que poderiam dizer. Ao fim, andam para caminhos opostos e sorrateiramente se olham.

novembro 19, 2014

Dois traços azuis

Desculpa a demora, eu não tenho mais respostas. Eu culparia o mundo, mas já o culparam por mim. Eu te diria para esquecer, mas sei que esse pedido só faz lembrar. Estou dando uma pausa, mas não dura muito até chegar outra pergunta. Eu pediria um conselho, mas dessa vez é sobre você. Agiria sem pensar, mas já foram muitas noites mal dormidas pensando tanto. Fingiria que não sei de mais nada, talvez realmente não saiba, mas tanta incerteza não prova e não move, ficaríamos parados nesse ponto de incompreensão. Eu pediria desculpa, mas sem saber o motivo. Por enquanto, perdoe somente o silêncio. Eu te escreveria um texto (e talvez já tenha escrito), mas falta coragem. Espero mais um pouco, mais uma semana ou um mês, como se isso fosse sumir. Desculpa a demora, pode ser aviso para que não digamos coisa alguma.

— Flávia Andrade

novembro 13, 2014

Um pouco de calma

Entre a despedida e o pedido para ficar, entre quem muito ainda queria e quem desistiu há semanas, havia tamanha preocupação. Era tarde para um, cedo para outro, mas quando os horários se reajustassem, como saberiam lidar sozinhos? 
Quando os lados fossem opostos, para quem tanto viu um no outro o futuro, para onde seguiriam? 
Entre dependência e auto suficiência, através de uma proposta silenciosa, andaram para seus novos rumos.
Se fosse realmente boa aquela liberdade, se fosse verdadeiramente tão dolorosa aquela solidão, se não lhes restasse saudade, se não lhes sobrasse prazer, que os ventos entortassem, que não necessitassem mais de acaso, voltariam com certeza imediata de que entre o fim que um sugere e o início que outro implora, tem um meio que não requer coisa alguma, simplesmente existe e se faz presente dentro deles.
E entre o silêncio lá fora e o tumulto no âmago, decidiriam o que discussão nenhuma poderia concluir.

— Flávia Andrade

julho 20, 2014

Que esse dia sare a dor de ontem e amanhã eu não queira voltar atrás. Que termine o dia e o amor errado, que eu procure outro tão melhor. Que desacreditar seja um passo a frente e reacreditar seja recomeço. Que qualquer rua tenha um novo alguém e para qualquer música outro sentido.

Flávia Andrade

junho 05, 2014

Você pensará em excesso, beberá um pouco mais que isso, criará falsos testemunhos para acertos seus, evitará vítimas de seus erros, sonhará com um passado que volta e fica, planejará um futuro melhor do que este que já vem, não se permitirá chorar, mas intimidará muita gente para que te arranquem um sorriso forçado como se fosse simples. Você estará sendo a pessoa que te espera no fim do caminho que decidiu traçar, esse que eu avisei que não valeria a pena. Estará em um canto tentando entender onde foi que errou, e não esqueça que também terá por perto somente sombras de quem um dia já te quis, restos de quem você já desmanchou com manchas de arrogância em cada centímetro seu. Você apenas será consequência de si mesmo.

 Flavia Andrade

maio 30, 2014

   Isso não se trata de onde estamos agora e de quem somos, é questão de cumprir. Você ao menos se lembra de tudo o que me disse? Das promessas poucas e seguidas de pedidos de confiança?
  Desde que você se foi, eu me pergunto se tudo o que prometeste foi tão supérfluo a ponto de que pudesse esquecer-te ou se fora tão pacóvio a ponto de simplesmente jogar tudo para o ar.  Pois eu acreditei quando você disse que seríamos ‘para sempre’ e emocionei-me ao ler tuas palavras dizendo ‘juntos até o fim’. Pensando nisso, sinto vontade de gritar, esbravejar palavras de baixo calão, porque parece que você não entende que este não é o fim! Não, não acabou! Foi uma pausa, um pormenor... Por menor que foste. Não acabou, pois as promessas nos acorrentam, prendem nossas almas, nossas vidas e nossos corações, e vamos continuar juntos enquanto houver o único infinito deste mundo mortal... Enquanto houver amor.
   Eu continuo aqui, você pode enxergar isto? Meu corpo permanece parado e taciturno, mas meus sentimentos transbordam aflorados e correm até você, eles querem te salvar. Eu quero te salvar! Deixe-me invadir teu mundo como da primeira vez que conversamos. Lembra? Eu me entrosei de forma que você não pudesse fugir. Eu confesso, roubei teu coração sem que você pudesse evitar. Não sei se até hoje você conformou-se com tal fato, mas estarei ligada aos teus rumos enquanto eu não devolver tal preciosidade. Foi assim que o motivo dos meus sorrisos foi apenas o fato da ocorrência dos teus.
   Ousei intrigar e confundir teu mundo, mas nem assim cessou a vontade de te amar verdadeiramente. E você... Oras, porque fez tal armadilha com meu coração? Por que não se decidiu se cuidaria dele duma vez ou se o esmagaria até que não existissem mais rastros por onde passei amando ou até mesmo odiando, não sei ao certo o quanto esta bomba ambulante que levo aqui dentro aprontou nessa minha sede de ruar.
   Esqueceu-se mesmo de o quanto te amo? Esqueceu-se de como foi que tudo aconteceu  e o que prendeu-nos até o que antes era belo? Eu guardei todas as palavras que me disse para uma última canção. O final não chegou, meu amor, mas eu tenho que entregar tudo o que tenho. Meus pés não agüentam mais sustentar todo este peso de saudades, lembranças, memórias, paixões, amizades e etc. que levo aqui dentro. Pega. Leva tudo. Pode ficar com você.
    Arrumei uma mala, está ali na outrora que vem chegando. Quando você notar a presença, saberá que é pra pegar e levar pra casa. Mas cuida bem, viu? Eu aguentei tudo isso calada e sorrindo, eu estivesse tentando consertá-las de forma que pudéssemos mais uma vez compartilhá-las e você não deu a mínima. Agora cuide, pois são meus bens preciosos, alimentei-as com o brilho das estrelas que observei todas essas noites que nem ao menos pude ler teu ‘oi’. Pois você não se deu ao luxo de me procurar. Isso é questão de cumprir, lembra? Não cumpriu, velho amigo.

Flávia Andrade


fevereiro 24, 2013

Pode ir

    Você pode por favor retirar este empecilho do meu caminho? Não a pedra, não o buraco, sim você. Retire-se. Está me incomodando. Saia do meu caminho! Não quero mais ser sua, não quero ter dono não, senhor. Então vá embora, pois nunca realmente te precisei. E quando for, leve tuas bagagens e malas, essas tranqueiras que alguns chamam de sentimentos, leve tudo aquilo que já acumulei por ti, algumas mágoas, alguns amores, poucas paixões, uns momentos de impactos vai levando em um caminhão. Leve como entulho e nem precisa cuidar bem, joga tudo amontoado e vai. Estou te largando, contudo não lhe acompanharei até a porta, estou te largando é pra ir embora sem me olhar, vai e não gaste tempo com palavras, pois vindo de você preciso mais delas não. E se me perguntar o motivo, é simplificado: "Cansei de te ser". E tecer, e ter que ser... Essa vidinha de fazer o que você mandava, de dizer o que você queria ouvir, de me manter no limite do que você tolerava. Cansei de fugir de mim para te alcançar, de me largar para te acomodar. Agora  é hora de partir, vai então com tuas tralhas e sem nenhuma preocupação, pois ficarei bem me sendo. E me acendo, e me reacendo. Me refazendo. Tudo bem.

Flávia Andrade

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julho 17, 2012

Razões para cumprir

   Isso não se trata de onde estamos agora e de quem somos, é questão de cumprir. Você ao menos se lembra de tudo o que me disse? Das promessas poucas e seguidas de pedidos de confiança? Você me disse que eu deveria ter te dado uma razão para ficar, mas nem ao menos me deu tempo para respirar e repensar, apenas foi sem cumprir nada.
  Desde que você se foi, eu me pergunto se tudo o que prometeu foi tão supérfluo a ponto de que pudesse esquecer ou se foi tão imediato a ponto de simplesmente jogar tudo para o ar.  Pois eu acreditei quando você disse que seríamos ‘para sempre’ e emocionei-me ao ler suas palavras dizendo ‘juntos até o fim’. Pensando nisso, sinto vontade de gritar, esbravejar palavras de baixo calão, porque parece que você não entende que este não é o fim! Não, não acabou! Foi uma pausa, um pormenor... Por menor que foi. Não acabou, pois as promessas nos acorrentam, prendem nossas almas, nossas vidas e nossos corações, e vamos continuar juntos enquanto houver o único infinito deste mundo mortal... Enquanto houver amor. Aliás, isso não é razão para que fique? Estamos acorrentados por juramentos, e vai lutar tanto pra quebrar uma corrente enquanto pode sorrir, se sentar e fazer as coisas aconteceram do jeito que sempre foi? Do jeito que sempre fomos...

   Eu continuo aqui, você pode enxergar isto? Meu corpo permanece parado e taciturno, mas meus sentimentos transbordam aflorados e correm até você, eles querem te salvar. Eu quero te salvar! Deixe-me invadir seu mundo, como da primeira vez que conversamos. Lembra? Eu me entrosei de forma que você não pudesse fugir. Eu confesso, roubei seu coração sem que você pudesse evitar. Não sei se até hoje você conformou-se com tal fato, mas estarei ligada aos seus rumos enquanto eu não devolver tal preciosidade. Foi assim, que o motivo dos meus sorrisos foi apenas o fato da ocorrência dos seus.  Essa não foi uma razão? Eu acreditei que isso realmente importasse.
   Ousei a intrigar e confundir seu mundo, mas nem assim cessou a vontade de te amar verdadeiramente. E você... Oras, porque fez tal armadilha com meu coração? Por que não se decidiu se cuidaria dele duma vez ou se o esmagaria até que não existissem mais rastros por onde passei amando? Ou até mesmo odiando, não sei ao certo o quanto esta bomba ambulante que levo aqui dentro aprontou nessa minha sede de ruar.
   Esqueceu-se de como foi que tudo aconteceu  e o que nos prendeu até o que antes era belo? Eu guardei todas as palavras que me disse para uma último texto. O final não chegou, mas eu tenho que entregar tudo o que tenho. Meus pés não aguentam mais sustentar todo este peso de saudades, lembranças, memórias, paixões, amizades que levo aqui dentro. Pega. Leva tudo. Pode ficar com você. Afinal, minhas razões não foram o suficiente.
    Arrumei uma mala, está ali na outrora que vem chegando. Quando você notar a presença, saberá que é pra pegar e levar pra casa. Mas cuida bem, viu? Eu aguentei tudo isso calada e sorrindo, eu estivesse tentando consertá-las de forma que pudéssemos mais uma vez compartilhá-las, e você não deu a mínima. Agora cuide, pois são meus bens preciosos, alimentei-as com o brilho das estrelas que observei todas essas noites que nem ao menos pude ler seu ‘oi’. Pois você não se deu ao luxo de me procurar. Isso é questão de cumprir, lembra? Não cumpriu, velho amigo.

Flávia Andrade
Texto para a 127ª Edição Musical do Projeto Bloínquês

junho 07, 2012

Adeus outrora

  Deixe-me ir, amor. Acompanhe-me até a esquina, mas não se deixe levar a me observar partindo após virar a rua. Saia de fininho para que eu não possa ouvir teus passos seguindo um caminho diferente do meu, para sempre, pois a dor tornar-se-ia maior. Vamos, confie que nossos lados opostos irão entrelaçar o caminho perfeito e não há motivos para sofrer, sei que não é de nossa vontade, mas o que fazer quando se é necessário? Vamos evitar erros, aqueles velhos e permanentes erros... Pergunto-me qual o sentido do eterno, pois se é eterno será então uma força inalcançável ou se tão esperado por todos se limitaria a ser verdadeiro? Quantas vezes prometeram que seria eterno, e não mais foi, acabou antes mesmo de tornar-se um "era uma vez", agora questiono se a eternidade é apenas uma força que ninguém tem certeza e em meu ser orgulhoso demais para acreditar, ele não existe assim como a fé. Então, se nosso amor é mesmo eterno como prometeu à meu amor próprio outrora, creio que devemos colocar-nos a sentidos opostos mesmo. Acompanhe-me até a esquina e não deixe que eu te ouça seguir em frente, e por favor, não chame meu nome, nem cante nossa velha canção até que eu esteja distante o suficiente para não ser capaz de ouvi-lo. Esta não é uma despedida triste, amor. Apenas nós sabemos o quanto precisamos e que ano após anos tudo se tornará mais fácil de lidar. Veja bem, doce amor, o dia está belo hoje, o sol, como você costumava me dizer, está convidando-nos a dar uma boa gargalhada, apenas pelo o prazer que sentimos quando as risadas são escandalosas. Os pássaros gentilmente cantam para nós. Cuide-se, enquanto ouve a canção deles. Cuide-se, enquanto embarco no meu futuro e deixo-te viver o teu. Cuide-se, apenas, amor.
Texto para a 120 Edição Visual do Projeto Bloínquês.
Primeiro lugar!

Flávia Andrade
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