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março 25, 2016

Tic, tac, para trás.

    Faz algum tempo que não te vejo, e só pude perceber quando era tarde da noite, tarde demais para me levantar e ir te procurar em algum canto da cidade. Eu dormi pensando que nunca mais, desde a última vez que nos vimos, confundi seu nome no meio das conversas - talvez porque a vontade de te chamar tenha passado, assim como as datas festivas daquele fim de ano passaram -. Quando se encontra um horizonte para fitar e seguir sem pressa, com aquela autenticidade de ir sem medo porque foi escolha sua, não há nada que o prenda a quem não foi junto. A falta só dura o tempo necessário para que você aprenda a satisfazer-se de si mesmo. Depois o que resta é um espaço maior ainda no cabide para laços afetivos novos e semi-novos, para criá-los, recriá-los e guardá-los. Eu deixei de saber por onde você anda, com quem conversa e em que casa vive, desconheço por completo sua rotina - a não ser que não tenha mudado e minha memória não seja tão falha - tampouco te procuro naquele endereço que eu costumava saber de cor. Deixo estar bem longe, deixo se desprender de mim com a mesma exatidão da intensidade de me desprender de você. Desatar laços afetivos, afinal, é tarefa para mais de um: quem tenta e quem deixa, quem inicia e quem termina, quem pede algum tempo e quem aceita que este tempo passe, mesmo que deixe um resquício ou outro pelas beiradas. Como o pequeno detalhe em cima da cômoda que me fez lembrar de você quando eu estava quase caindo no sono por completo, como alguma pessoa de mesmo nome que o seu que às vezes aparece no meu dia, como histórias parecidas com a nossa retratadas em filmes ou livros. E, de qualquer forma, tudo já ficou pra trás.
Flavia Andrade

junho 16, 2015

A Ultima Explicação

 

   Quando eu dizia "eu não sei", eu sabia. Eu tinha todas as respostas boas que não escapavam com seus olhares ruins. Não havia carinho o bastante para acomodar o que estava para ser dito. Eu ficava muda, pensando em fugir, porque ali não estava me fazendo bem nenhum. Mas era difícil aceitar que logo você, que tanto me prometeu fazer bem, me cuidar, logo você que chegou cheio de sorrisos e esquentou minha mão com as suas enquanto comentava do tempo chuvoso, estava, naquelas horas sem fim, daquele jeito que me fazia conter lágrimas medrosas. Quando eu dizia que não tinha nada planejado para nós, eu estava apenas desistindo dos planos. E quando você me forçava a elaborar algo novo, eu jurava para mim que conseguiria sair antes que a pressão atingisse o limite. E quando eu te via agindo com todo aquele ar de superioridade e incompreensão, eu me arrependia de ser eu mesma, de ter chegado até ali. Quando eu parei de dizer nada, sinto muito, eu cansei. Eu não mentiria mais, e eu não iria a lugar nenhum ao seu lado. Eu parei de acreditar.

Flávia Andrade

abril 20, 2015

Propaganda se vende com saudade


    Eu te deixei virar sinônimo de saudade e, por azar e desleixo, quando falam sobre a falta que alguém faz só consigo pensar em você. Às vezes o aperto no peito nem é forte, nem mexe na ferida e eu até consigo passar por algumas horas sem efeito de tristeza-e-vazio algum. Às vezes até esqueço seu nome e nunca lembro quantas semanas já nos deixaram para trás. Mas se eu saio na rua com meus passos quase atentos dá pra ver: a palavra saudade está estampada em todo lugar.

Flávia Andrade

março 30, 2015

Três Dias de Fevereiro


    Eu sinto falta do seu carinho que quase um mês depois você chamou de chamego. No dia, você reparou nos meus pés gelados - eu já tinha avisado, enquanto eu me aconchegava cada vez mais no seu peito. Minha mente estava sobrecarregada de localizações na cidade, pois você queria sair e eu precisava te levar para qualquer lugar bom. Eu confessaria, se não fosse tamanha a timidez, que queria ficar somente no quarto, eu e você por três dias inteiros. Eu conversaria mais caso minha cabeça não estivesse habitando um tumulto. Eu me mexeria mais na cama caso não estivesse te querendo como cobertor ou segunda pele, todo meu por todos aqueles dias. Perdoe o que não fiz, foi tudo o que eu quis e pude fazer. A essa altura até desisto de saber se você quer voltar só para me ver, até paro de me questionar se por algum momento te fiz mais feliz do que você poderia se fazer sozinho. Se, banalmente, te valeu a pena. Eu sinto falta dos beijos tímidos de trinta e quatro dias atrás com sorrisos escapados, dos beijos que conversavam mais que (e por) nós. Mas eu chego logo aí para matar um pouco dessa vontade toda e no caminho vou esperando e pedindo baixinho que você ainda queira me ver outra vez, que me cubra por mais dias, que a gente esqueça o mundo lá fora por mais horas.

Flávia Andrade

março 21, 2015

Desconfortáveis


    Passos desajustados dentro do shopping. Um sorvete na mão direita. Uma sacola com chocolates na mão esquerda. Olhos com lágrimas prestes a despencar. Uma mente tumultuada com lembranças. Passos desajustados dentro do shopping querendo correr para fora, correr até alcançar o carro. Aquele carro que já está em movimento. Dentro do carro pés inquietos. Na mão direita um celular. A mão esquerda se apoia na mochila. Olhos semicerrados pelo sol que adentra o veículo. Uma mente cheia de coisas que fez, não fez e poderia ter feito. Na vida sempre resta um que fica e outro que vai, um que supera e outro que não esquece. Sempre um torto e outro de caminhos certos. Sempre um racional e um emocional. Passos emocionais dentro do shopping. Passos emocionais conforme os dias se seguem. Passos emocionais de um ser emocional à flor da pele. Passos com saudade. Passos que tentam se enganar e dizer que já não sentem mais nada. Para lá do carro, para lá do aeroporto, para lá do estado: passos inquietos de quem sempre tem algo melhor a fazer, que não se prende aos dias que passam. Passos renovados. Mesmo que digam que sentem saudade, não significam. Os passos se contradizem e vão em direções opostas. Aos poucos vão alcançando distâncias tão longas onde não poderão se ver mesmo que olhem para trás. Passos vazios. Passos solitários.

Flávia Andrade

março 14, 2015

Adeus Sem Consoantes


    Olho para você com toda a calma que eu aprendi a ter, enquanto na mente só o desassossego rodeia. Disfarce um riso, peço para mim. Disfarce um abraço frouxo que se torne apertado e não o deixe ir, recomendo em silêncio. E, calmamente, entre o sorriso e braços abertos, te digo para ficar. Não quero demonstrar que preciso, mas não quero mentir que logo esqueço. Olho para você como se tomasse um café cheio de açúcar, com as bochechas coradas. Mas aqui dentro estou inundada de café amargo, com os olhos marejados. Não mostre seu riso, imploro ainda quieta. Não mostre que está tão bem para não parecer que só para mim tem sido difícil lidar. Se você fizer um tumulto, uma cena, eu faço também. Se você desistir de ir, eu desisto também. A condição para o meu silêncio é o seu e assim é o resto. Olho (com esses olhos que tanto conversam) como quem diz: tudo bem, é só mais um capricho meu, pode ir.

março 11, 2015

A Despedida


    O olhar foge da cama, ignora a cômoda e sequestra a moça. Ela, na frente do espelho, enxergando pouca beleza pela baixa autoestima tenta passar despercebida. Mas ele a olha, faz memórias fotográficas para o sonho de mais tarde, para quando o espaço esquerdo da cama ficar vazio. A despedida é silenciosa enquanto os dois se arrumam, ocorre um beijo estalado no centro do quarto quando se cruzam. Os passos e os braços estão vagarosos em cada movimento para que aqueles últimos minutos durem um pouco mais. As roupas deslizam pelo corpo querendo voar para longe outra vez, mas vão ficando apenas acomodadas. Ao fim, parecem, frente a frente, prontos, arrumados e vestidos enquanto por dentro estão despreparados para a saudade que sentirão. O olhar dele a encara profundamente ainda feliz, o olhar dela desvia todo triste. Eles são, ao mesmo tempo, ternura e lamento. São, juntos, mais do que nunca poderão ser sozinhos. Andam trocando suspiros pelos corredores, alcançam as calçadas, atravessam as ruas. As mãos dadas estão muito mais firmes que a coragem de seguir com os dias que estarão longe, as mãos dadas se aquecem como se pedissem para não mais esfriarem. Os olhares escapam para céus e terras, para todo o clima que os acompanha até ali. Ali onde o último abraço em um longo espaço de tempo acontece. Onde os dois sorriem com custo. Onde ambos sabem que precisam tomar caminhos diferentes. Eles ainda não disseram palavra alguma e não dirão, suas vozes talvez estejam embargadas e o aquecimento dos corpos significam mais do que poderiam dizer. Ao fim, andam para caminhos opostos e sorrateiramente se olham.

fevereiro 02, 2015

Equilibrante

    A cada dia encontro algo em mim que gosto menos e algo em você que disfarça esse defeito. Algo que me falta e sobra no seu jeito e eu penso que preciso ter. É um pouco da sua paciência que carece no meu surto, é muito do seu riso para o meu choro desenfreado, é você tão racional para o ser tão emocional que sou, são as provas concretas que você tem para as minhas intuições. É que eu sou uma desajustada e você é o esforçado que traz pesos a mais para o outro lado da balança e me deixa em equilíbrio. 
— Flávia Andrade.

janeiro 25, 2015

Instabilidade

    Meu dia fica fora de contexto se você não aparece, se não diz entre uma conversa e outra que andou fazendo algum plano bom para nós. Meu dia fica desfocado de outros dias bons se você não dá um sinal de vida, de vontade de me ver. É que eu estou sempre aqui com todos esses pensamentos que envolvem passado e futuro, e você precisa se encaixar no meu presente para que tudo faça sentido, como se fosse você quem eu precisava para deixar o que ficou para trás e buscar novos acontecimentos. E, na verdade, é você sim. Eu só não posso dizer tantas vezes coisas assim para que não vire um peso nas suas costas e você não tenha que se arrastar para chegar mais perto de mim. Eu não posso dizer tanto o quanto sua falta desestabiliza imediatamente minha semana inteira, seria me deixar muito vulnerável ao seu redor. Mas me deixa.
— Flávia Andrade.

janeiro 17, 2015

É só receio, meu bem

    Diga aí uma coisa qualquer que você já saiba que eu não gosto, procure nas minhas reclamações algo que pareça um defeito seu e me conte. Não posso gostar tanto assim e você não pode ser tão bom pra mim, tem que ter um desbalanço e um desequilíbrio logo agora, para eu saber como me manter em pé depois. Sabe, depois que tudo der errado, porque é o que acontece. Eu vou pesquisar seu signo e saber se bate com o meu, vou consultar tarot, amiga conselheira e me perdoa se te comparar com quem já não deu certo. É que eu não quero andar em caminho escuro outra vez, eu não quero andar tanto e depois de estar com os pés cansados não gostar mais do rumo para qual estava indo. Conte uma história ruim, confesse uma coisa que pode me dar um susto e querer fugir, me deixe em cima do muro oscilando. Discorde das loucuras que eu digo e nem precisa elogiar esses meus textos todos, é só para eu não me prender muito na ideia de que você gosta de mim. Caso contrário, depois que tudo acabar e você for embora vai ser difícil entender os motivos. E eu sempre procuro motivos como agora, eu peço explicação no início e no fim porque me perco totalmente no meio, nele é só a gente vendo o lado bom um no outro, mas escuta, estou vendo que nossos signos não têm tanta afinidade e caiu uma carta ruim no nosso tarot, eu nem acredito tanto e uns conselhos me dizem para arriscar. Escuta, já está chegando na parte em que eu fico perdida, sem saber o que fazer, desnorteada. É um filme repetitivo, talvez eu tente te afastar sem querer como numa preparação para ser deixada de lado. E você tem que decidir se já reclama dos meus jeitos agora ou um pouco mais tarde, eu sei que vai. Diga se o que eu planejei se encaixa nos seus planos, diga se enquanto eu mudo por medo você não se cansa, diga se ainda não quer desistir. Alguma coisa em você tem que ser errada, não pode alguém ser tão certo para mim, tão "destinado para ser", tão "é esse", tão "meu futuro". Então diga o que pode desmoronar o que a gente começou a construir, diga por agora, eu tenho medo de cair de um lugar muito alto outra vez.
— Flávia Andrade.

janeiro 11, 2015

O pseudo ator e a espectadora


    Ele é aquela pessoa que se oferece para subir no palco e participar do espetáculo. Eu sou aquela que fica em um canto distante assistindo tudo com o sorriso mais discreto que pode ter. Ele é improviso, eu sou uma interminável preparação. Ele apenas faz, eu apenos planejo, mas com toda essa vontade de sair do lugar, ele invade meus planos, inunda minha mente e coração e me leva junto dele para onde eu nunca iria sozinha. Eu não sei estar no controle, e me pergunto o que posso fazer quando um dia ele se cansar de me levar como carga pesada nos ombros, se perder um pouco a força e precisar de mim para continuar a corrida. E se eu deixar virar caminhada? E se eu deixar virar uma pausa? E se eu deixar tudo sem graça? E se eu deixar ter fim?
    Ele é aquela pessoa que não faz essas perguntas mentalmente, enquanto eu penso, repenso e até escrevo. Ele é aquela pessoa lá em cima se divertindo ao máximo pelo show que pagou, eu sou aquela pessoa que foi meio sem querer e quer ir embora antes de acabar. Talvez o show seja nossa vida. E o que duas pessoas vivendo de maneira tão diferente podem fazer tão próximos um do outro? E então eu caio nessa de chorar numa apresentação de humor, e ele está lá no palco vendo uma única pessoa derramando lágrimas, e se ele não quiser descer? E se ele procurar por uma plateia melhor e opitar por esquecer a única que não gostou tanto? E se ele não entender que o problema é todo meu? O caos sou eu, a melancolia é minha. 
    Eu sou aquela com os olhos intercalados entre o palco e o portão de saída, eu sou a indecisão ambulante no meio da multidão.

— Flávia Andrade

janeiro 02, 2015

D-istração

   Você é quem me deixa distraída com pares de sapatos trocados, chave esquecida em cima do balcão, nomes não memorizados ou confundidos, você é quem me deixa na contra mão dos meus destinos, dá uma disritmia nos pés que não sabem mais dançar, não sabem se vão ou se voltam. Você é aquela pessoa que ocupa boa parte dos pensamentos e não me deixa chances de me concentrar em algo a mais, fica tamborilando na mente, vai sendo um acúmulo de lembranças e planos futuros, seu nome repercutindo de um lado só e do outro lado tenho as coisas mais improváveis pelas quais podemos passar juntos. Porque eu vou pensando em você e vai virando tudo uma loucura, o sossego é quando você chega e essa bagunça toda aqui dentro começa a se acalmar, e eu até lembro de apagar todas as bocas do fogão, guardar as coisas na geladeira e dar aquele recado de duas horas atrás que alguém pediu, até entendo a trama do filme passando na televisão, até sei a pontuação dos jogos, até faço um comentário válido. Mas você sempre vai embora e eu fico aqui nesse tumulto de quem não sabe mais estar só. 

— Flávia Andrade



novembro 27, 2014

Sobre te encontrar

"Se diz, no meio do silêncio, como quem não quer nada e com poucas palavras, se diz que vem, o desequilíbrio me apropria. Resta pouca noção de tempo, somente foco para o dia que avisou e não penso mais em nada. Se diz, sem rodeios e discreto que o mundo lá fora não é tão importante e que prefere nós dois como protagonistas, se diz que estaremos bem quando vier, então cautelosamente me equilibro para te esperar"

— Flávia Andrade
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