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abril 23, 2017

Aos sóbrios as prosas

1,061 Likes, 37 Comments - Frédéric Forest (@fredericforest) on Instagram: “Woman waiting - Etude - Flowers, Etude - All drawings, images, photographs and graphic design is…”

 Repete o finalzinho daquele poema do Drummond de novo, por favor  eu peço entornando a garrafa de vinho na taça que, a esta altura, foi esvaziada já umas seis vezes intercalada por duas bocas.
 Eu não devia te dizer, mas essa lua, mas esse conhaque...
 Vinho  corrijo apropriando-me do verso.
 ... Botam a gente comovido como o diabo.

    A estrofe sempre me dá um baque de verdade, como se eu me encontrasse ao lado daquele homem franzino e seus óculos e seus papéis de poeta para sentir a comoção da vida vilipendiada pela embriaguez.

agosto 06, 2016

Gosto dos seus olhos iluminando os meus como luz de abajur pra eu ler seu rosto deitado no travesseiro.

agosto 04, 2016

    Ele deitou no sofá e cantou os quatro discos inteiros daquela banda nacional. Cada música na sua voz acompanhando o som do rádio velho parecia muito melhor. Eu até quis pagar com a língua dizendo que a banda não era tão ruim assim. Fiquei deitada no chão da sala de estar, intercalando meu olhares entre seu corpo jogado no sofá e a pintura alaranjada do teto. Algumas das faixas dos discos pareciam com a nossa vida, mas eu não sabia se ele interpretava da mesma forma. Afinal, as músicas eram mais dele que de qualquer outra pessoa, e não havia como penetrar mais fundo em sua alma se não fosse com aquelas letras e sintonias de ritmos. Eu fui para sua casa para encontrá-lo e dizer a frase que estava guardando comigo há semanas, mas durante quatro discos inteiros eu não consegui dizer nada. Talvez as músicas estivessem falando mais por nós que qualquer diálogo possível.

março 30, 2016

Das constelações às multidões

sky, night, stars

    Que não construam mais prédios, os olhos pedem. Os olhos que saem à noite apenas para encontrarem aglomerados de estrelas no céu. Eu interrompo falas noturnas de quem quer que esteja andando ao meu lado para adicionar um comentário verborrágico sobre o que vejo, e não há nada que me impeça de valorizar o plano-sequência real das caminhadas nessa cidade de casas baixas. É assim também com um corpo intensificado pela alma que quer encontrar outro corpo transbordando apelos de um coração devorador de espíritos e auras. Que as pessoas não construam mais barreiras, que não arquitetem mais medos, porque o amor precisa de espaço; precisa ser enxergado a olho nu, com telescópio ou olhos de caleidoscópio no meio de um tumulto ensurdecedor. É preciso que se sinta tão quanto se vê, porque sentimentos cegos são confusos e perdem a melhor parte: o reconhecer. É preciso que haja uma paisagem livre, digna da infinitude de uma fotografia horizontal, para que os olhos perscrutem até encontrarem quem desejam, como perscrutam o céu até encontrarem o Cruzeiro do Sul. Te reconhecer de longe, afinal, é o impulso que me faz correr sem me preocupar com qualquer obstáculo, querendo alcançar somente a parte sua que me falta, ainda que essa parte seja seu eu completo prestes a me inundar. Que as pupilas dilatem com cada estrela e pessoa encontrada.
Flavia Andrade

março 28, 2016

Das possibilidades piegas que o coração imagina

    Do fundo do meu exagero mais piegas, uma confissão: ainda que fosse o fundo de um poço, se fosse ao lado dele, eu ficaria. Eu afundaria meu rosto em sua camiseta para não sentir o cheiro ao redor e deixaria que seu rosto repousasse no vão do meu pescoço para também respirar. Ficaríamos abraçados com a força de um mundo inteiro para nada ruim nos atingir com nenhuma precisão. Por ele, por mim. E mesmo se começassem a arremessar algo lá de cima, nos espremeríamos bem no canto, sãos e salvos. Que outro gesto, senão um beijo, mataria mais sede? Sobreviveríamos. Eu não temeria em dizer que estar com ele provocava a melhor sensação que eu poderia sentir.
Flavia Andrade

dezembro 03, 2015

Meu próprio City Lights

    Que a cidade me perdoe por encontrar em cada canto, beira e centro dela, muito de você que persiste em ficar aqui sem discrição. Parecendo que sobrou perfume seu no ar ao se despedir com os olhos semicerrados. E que perdoe a culpa das esquinas e dos bares, dos ônibus de número 87 e da praça por me fazerem (re)contar quanto tempo faz que a gente não se vê. A cada dia que passa, além de deixar tudo nosso mais pra trás, é uma chance a menos de ir te buscar, mas os números são só números. Sozinha assim, em meio aos crimes de apego, eu só desejo que minha mão que escreve saiba desculpar meu inconsciente inconsistente que transforma as frases mais banais em textos de poética dos sentimentos exagerados sobre nós. É que a saudade me mete em confusão. E de todas as formas de me perder na rua, o perigo maior é querer te ver outra vez e pegar estrada pra te encontrar. Porque só de estar aqui, a sua falta me empurra ao seu encontro, e eu juro que levo os filmes e os shows gravados daquelas bandas pra gente assistir aí nesse lugar novo que te prendeu. Que a cidade tão nossa, um pouco ciumenta, não chore quando eu for embora também, e guarde com zelo as nossas memórias até que a gente volte para reinventá-las.
Flavia Andrade

novembro 20, 2015

A sorte da eternidade

    Somos um pedido de socorro não gritado. Sussurramos no meio da noite com as cabeças em nossos travesseiros, embargando o choro. Do que precisamos é um e outro, um do outro, um no outro, um com o outro; precisamos dessa junção de dois em uma cama pequena ou sofá largo, sem que nenhum de nós implore, no sufoco, por socorro, por sossego, por afago. Nossa eternidade não soa tão boa se estamos abaixo d'água afogando, sabendo que o tempo bom e duradouro está na superfície e só o alcançaremos ao respirar. Precisamos de um ar qualquer ao sair daqui. Batemos nossos braços e nossas pernas e nadamos e nadamos e nadamos, querendo fugir do mar que adentramos buscando águas salgadas que não fossem lágrimas, para que não víssemos as marcas borradas em nossos rostos. Eu te escuto, além da voz repetitiva acusando nossos erros, eu te escuto. Vou emergir e te buscar com as duas mãos, te trazer para o meu abraço outra vez, eu prometo e depois disso, depois de uma longa respiração, de uma tosse que bote pra fora toda a água engolida, toda palavra guardada, todo sentimento contido - um despejo de tralhas -. Quando vier a leveza, meu bem, estaremos juntos como desejamos nesse sono, nesse sonho, nessa sorte nossa.
Flavia Andrade

novembro 03, 2015

Quase e por pouco


    Eu quase não te quis por um milésimo sequer de euforia, e quase me dispersei por completo dos seus lábios com outra coisa quase mais importante que o som discreto do seu riso. Foi por pouco. Se tivesse acontecido mais um bocado daquela cena maravilhosa brilhando nos meus olhos, só por mais alguns segundos, você me perderia. Eu penso nisso agora porque reconheço, admito, que quando estamos frente a frente, eu só sei te olhar. E voltar minha atenção a outro sentido é raro demais para mim, para nós. Eu vi a luz amarelada de um farol de carro se confundindo com a luz da lua, ainda baixinha e perto da gente, querendo aparecer por entre as árvores distantes. Fiquei estonteada. Fitei-as até o veículo sumir de vista, pedindo em prece que durasse mais um pouco. Mas que coisa mais bonita foi aquela! Eu quase me esqueci de você e do quanto gosto de te olhar com os cabelos bagunçados e barba por fazer. Até desejei rapidamente, confesso, que não olhasse também para onde eu olhava, apenas para que aquele momento fosse só meu. Como se uma estrela cadente passasse e somente eu pudesse fazer o pedido. Foi tão fugaz, assim como o egoísmo não duradouro, e te encarei de novo, com os olhos meio contentes, meio deprimidos. Eu não veria aquele encontro de luzes novamente, mas você sempre estaria ali e, para suprir meu último encantamento, eu continuaria sorrindo para cada contorno seu.

Flavia Andrade

outubro 19, 2015

É com você

    Desisto e não vou mais fazer planos para nós dois. Eu só preciso dizer que seria bom se você pudesse colaborar em me encontrar casualmente no meio daquela rua perto de onde trabalha e me convidar para ir na sua casa mais tarde. Sabe, é só um convite pra sentar no sofá e ver tevê. Talvez até para uma bebida que por acaso você tenha na geladeira e ainda lembre que eu gosto, mas pode ser tudo uma coincidência boa de aproveitar. Pode ser ainda melhor se me disser algumas coisas bobas que já se passaram nos diálogos que criei na mente, sabe, só porque essas coisas realmente podem acontecer e, como eu já ia esquecendo, nem vai soar repetitivo.
    Eu não vou ficar contando horas pra te ver, mas eu saio de casa às sete horas, volto ao meio dia, fico por aqui e quem sabe você não resolva passar porque estava dando uma volta sem motivos maiores pela vizinhança. Desisto mesmo, de verdade, de pensar tanto em te ver outra vez e ficar com uma saudade sem controle. Até porque, se caso você me encontrar, meio que sem querer, no supermercado onde sempre faz compras, a saudade passa rapidinho, não passa? Você prefere reabastecer sua cozinha no começo ou fim do mês? Não é por nada não. Eu até gosto de andar até lá e evitar o mercadinho daqui de perto.
    Esse negócio de planejar tudo o que se quer fazer não é mais comigo, mas posso abrir uma uma brecha se você me perguntar o que vou fazer no sábado. Ou na sexta, na quinta, na quarta, e posso expulsar de mim a vontade de ficar em casa que sinto nas segundas, terças e domingos. De resto, desisto, é com você.

Flavia Andrade

outubro 16, 2015

Argh!

    É tão... argh! Essa coisa de ter todos os sentimentos do mundo por alguém ainda me leva à loucura. Meu amor indefinido por uma pessoa só é isso, essa coisa confusa de desejar amá-la com tamanha força que a sufoque e odiá-la por segundos tão longos que a transforme em outra pessoa melhor, mesmo sabendo que é só aquela ali, daquele jeito errado demais pra você, que é boa e ruim de gostar tanto assim. Gostar tanto a ponto de não querer tão perto todos os dias e brigar tanto pra depois morrer de saudades.
   Sentir muito, assim, desastrada, é como comprar o ingresso mais caro para o show menos esperado, apenas pra ouvir uma única música ao vivo. É dar a volta ao mundo correndo com o objetivo bobo de dar uma passadinha em um lugar pequeno que fica no outro extremo. É comprar toda a areia da praia pra construir um castelinho em formato de balde. Mas é que os detalhes são tão bons! E sempre que tento deixar para trás, superar as histórias e não gostar mais, um momentinho de poucos minutos no meio de um dia tumultuado já me prende de novo.

Flávia Andrade

setembro 30, 2015

Sobre o amor

    O amor começa a ser sentido, eu finjo que é sono e tento dormir. Mas amor é dos insones. Começo a sentir uma saudade enorme por vinte minutos de ausência e finjo que é fome. Mas saudade é para toques, corpo a corpo. Sinto uma vontade danada de dizer exageros gritantes sobre o quanto um pouquinho de você já me faz um bem maravilhoso, e depois tento disfarçar que é só animação e me arrumo para uma festa. Mas cada coisa que eu não digo aparece nas músicas que tocam lá fora e preciso voltar correndo para o silêncio da casa. Acontece que já gosto um tanto de você e isso me segue até que eu possa te encontrar e fingir que é só mais uma coisa banal. Mas o amor já pede espaço e tenta entrar na nossa conversa também. Daqui a pouco digo tudo, te assusto, tento acalmar, paro de fingir e espero que você fique.

Flávia Andrade

setembro 26, 2015

Meu bem, de verdade

    Qualquer lugar, à beira do abismo ou na única cadeira vazia do boteco, é melhor quando você está. Ainda que eu fique muda sem saber o que dizer, ainda que você dê risada do meu jeito quase-sem-nenhum-jeito de dizer que foi até bom ter me convidado para estar ali porque eu não tinha mesmo mais nada para fazer em um sábado à noite. Digo isso porque não quero que se preocupe se a bebida está quente, nem com minha melancolia sempre estampada na cara e principalmente nos lábios, porque você está fazendo isso aqui ser melhor que uma semana inteira de chuva. Eu sei, faz tempo que não chove. Mas chovia dentro de mim, dos olhos pra dentro, eu estava cheia de choros contidos. Você vem me salvando e nem sabe, vem me causando umas coisas estranhas que talvez alguém se arrisque a chamar de felicidade, mas que só digo ser efeito seu.
Flávia Andrade

setembro 24, 2015

Traços

    Meu mundo está nos traços. Os traços contornados do rosto dele que se embelezam entre o queixo e os ombros em um pescoço que eu beijaria toda vez. Os traços das dobras dos dedos que roubam minha atenção enquanto escrevo e os traços das letras no teclado que me trazem de volta ao enredo. As traças que deixam minhas blusas rasgadas. Os traços-estrias perdidos no meu corpo de mulher-sem-perfeição. Não me esqueço nunca dos traços mais bonitos nas fotos da família, dos amigos, dos perdidos desconhecidos. Não lembro tanto dos traços dos que já se foram, mas seus traços de perfume e riso ainda me acompanham em noites ou semanas de saudade. Os traços-laços das roupas de ocasiões especiais e os traços-amassos dos que encontro dentro do cotidiano. Ah, os maravilhosos traços da rotina que tentam me segurar e deles me arrebendo, e nessa brincadeira nunca repito um dia. Os traços das rotas mais curtas que sei de cor e os traços-sonhos das rotas que quero viajar, são os traços-mundo de uma vida cheia de mapas. Amo os traços que as veias desenham naturalmente e os traços que artistas fazem em nossa pele com suas tintas e agulhas mágicas. Sou feita de traços embolados como fios de fone de ouvido em bolsos de calça jeans. Não sou traço de costura, sou de lápis, pincel. Se uma linha se solta lá na ponta, meu mundo chega cá desabando, entortando, mas começo sempre um traço novo com giz, ponta dos dedos, compasso. Sugiro a ele um novo traço: dois em um, como se a corda bamba do palhaço pudesse dar nó com a corda firme e elástica de quem salta de bungee jumping.

Flávia Andrade

setembro 23, 2015

primavera

    meu bem, nem vejo a primavera chegar, só reclamo do calor e você já está com esse sorriso todo, torto e grande de flor. eu 'tô cinzas de inverno e 'cê-tembro, 'cê corre pelo mês. ainda não fui ver a decoração natural da cidade sem ventos, mas você já passou batom vermelho, botou saia colorida e foi ser feliz no asfalto com todos os arranjos, baias e penduricalhos. o que faço, mulher? se as estações estão voando e você está contente soprando dentes-de-leão e as crianças querem soltar pipa. o que faço se a melancolia dos últimos meses cresceu em mim e você me puxa pelos braços como num clipe do cícero. a gente não tem piscina, nem mar, mas você anda até o fim do mundo para encontrar cachoeiras e inunda os cabelos e corpo inteiro, diz que é outra, que é nova, que me ama. deixa eu confessar que até já gosto dessa primavera, mas você e ela vieram depressa, e eu nem guardei os sonhos de neve, nem retornei de alma por completo ao país.

flávia andrade

setembro 18, 2015

Gota que pinga

    Gota desse mundo, gota desse mar, gota de álcool, 'cê é um pouquinho que se cair em lugar errado enche, transborda ou embriaga. Eu chego com esse tanto de coisas sentidas, com esse coração maior que a vida, com esses textos tão grandes e digo que te amo, mas você é tão só, eu sou muito pouco, e a gente não aguenta levar todas esses meus exageros. O contraste grita, você ri, eu choro, a casa 'tá bagunçada e as malas foram desfeitas em cima da cama. Eu não sei onde é que vamos colocar o que trazemos lá de fora, mas sei que posso te fazer um bem quando me despir dos tumultos. Gota desse mundo, gota desse mar, uma garrafa inteira de bebida alcoólica, nós somos um tanto, um caminhão estacionado de humores, que se ficarmos por aqui fazemos a história ser pra sempre.

Flávia Andrade

'cêtembro

    É que você me é setembro. Meio chuva, meio frio, mas muito calor quando quer. Faz sol e tem eclipse. Os insetos voam pelo ar, acertam minha pele, a temperatura está alta, mantenho a casa aberta e você não entra. Esse mês vem depois do mês que parece nunca acabar e vem pronto para me aquecer para o fim, poderia ser mais você? É tão seu, tão do seu coração que os ipês amarelos e brancos estão nos seus cabelos. E eu acho tão bonito que peço pra ficar mais, que rezo pra não acabar, que aproveito o tempo todo no clima que flor.

Flavia Andrade

setembro 07, 2015

Te vejo

    Te vejo. Me torno universo. O que sinto se expande de céu a céu, ao norte da boca, ao sul da queda das lágrimas de riso, aos pés no raso, ao corpo no profundo, à mente em órbita. Me torno estrela. De noite, de cinema, sol. Me torno mais do que sou, uma Flavia que vale por dez. Me torno mais do que você é, um nome gritante ecoando por meus paraísos. Me torno ilha e lua, cidade grande e sertão. O que tento dizer até agora é que por te ver viro todos os sentimentos do mundo, toda a vivacidade de ser. O que tento explicar é que sem você por perto sou a cabisbaixa na grande festa dos alegres, sou solidão. Vê se assim aparece mais vezes, pra eu sentir a imensidão do sentir. Te vejo e sorrio.

Flávia Andrade

setembro 03, 2015

Quase sem você

    Não sei como faço pra chegar até você se não for por todos os meios de histórias com início e fim. Às vezes fico perdida nos encantos dos diálogos que não tivemos e pouco consigo recordar do que foi real nos mundos não imaginários. Porque te deixo livre para vir quando quiser e sonho. Espero que destino sejam aquelas palavras que não digo para mais ninguém, que venho guardando entre você e eu. Em pensamentos que trago em sacolas frágeis sei te encontrar, como as bolsas cheias nas quais só seus donos sabem onde as moedas se escondem. Você é o que mais vale aqui dentro e não vendo por nada, nem que as ofertas sejam amores menos tristes, com poucos textos e mais beijos. Eu já gostei um tanto da sua distância, porque de olhos fechados posso te encontrar mais vezes.

Flávia Andrade

Pra me dizer

    Não peço para me dizer o que já sei de cor, só preciso ouvir o que ninguém ainda soube me dizer. "Eu te amo" é simples, clichê, um pouco cafona. "Eu te amo" está atrasado em questão de nós dois. O que são três palavras para três livros? O que é uma frase curta para uma vida longa de tempos infinitos? Não te deixo ir embora sem mostrar para o que veio, sem deitar na cama para rir do que venho te dizendo e esticar bem os braços, ocupar todo o lugar, para ser um novo móvel na casa. Empilho as roupas, empilho os olhares, empilho as brigas, tudo em cima de tudo para sobrar espaço para uma dança sem ritmo. Pra no meio da música você interromper só porque precisa tanto dizer que não é justo guardar o que sente, só pra dizer que nesse tempo todo aprendeu o que escola nenhuma ensinou e anotar em mim, como quem anota em caderno novo, os versos sem métrica que te fazem algum sentido.
Flávia Andrade

Com Amor, Delirante Urbana

    Escuta bem que não sou bonita e não sei por que me olha tanto. Bonito é seu jeito sossegado de me dizer adeus, pra depois voltar com uma saudade mais pesada que todas as roupas e presentes na mala, pra depois contar que cada canto da cidade tinha um pedaço que te fazia se lembrar de mim. Bonito é seu olhar de sono tentando me ver mais um pouquinho antes de adormecer, bonito é seu sorriso torto no meio da terceira explicação sobre o filme que não entendi. Escuta bem que não sou tudo o que pensa. Bonito é seu tempo pra pensar tanto em mim até encontrar detalhes que possa elogiar e que me façam acreditar que é verdade. Que é verdade que você sempre me quis e ainda me quer. Bonito é seu jeito convencido de me convencer a gostar de mim também. Bonito é você me fazendo alguém bem melhor.
Flávia Andrade
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