E
como as roupas boêmias soavam patéticas, nunca em outras pessoas, apenas nele,
ecoando “magistral” como elogio ao cânone literário brasileiro – que nada mais
é que sua virilidade acadêmica a ser empalada nos alunos. E os olhos deles
todos derretiam para o chão em sono com a memória trabalhando atônita. “Vocês
devem esquecer para lembrar”, ressoava, ressoava, ressoava, “esquecer para
lembrar”, mas sabiam que se não fossem Funes, o memorioso teriam em troca somente
uma nota muxoxa por quem não admite existir no mundo alguém que não tenha lido
Borges e ainda assim seja melhor. Como o dia não acabava na sala das portas de
vidro e anoitecer pendendo afora, aquário morto para borboletas cintilantes.
Como o outro não se calava com as vestes imitadas e um pedestal na mochila para
aos pés de seu professor a cada vez que fosse se referir com o mesmo
vocabulário exaustivo e vicioso. Vocabulário de quem não vive, palavras mortas
para ouvintes semivivos. As teorias perpassadas por “né”, os gritos dignos de
um pastor da Igreja da Graça de Deus ou da Assembleia do Malafaia, mas nunca dignos
dos meus ouvidos e eu saía do lugar para me encontrar como bem me entendia.
Tinha sempre de voltar e a hora no relógio era sempre a mesma. Borges, Clarice,
memorizem, esqueçam, memorizem o que eu sou incapaz de lembrar,
humanos-máquinas para o rei desta categoria da humanidade: o
humano-inútil.
maio 10, 2017
abril 29, 2017
Não saber nada é sentir tudo

Do momento em que o conheci até agora ainda me faço de incompreensões. De lá para cá eu não soube reconhecer em mim um sentimento específico que me fizesse ficar ao seu lado por tanto tempo, mas fico. Dizem que amor não requer explicação. Entretanto, amor sem razões tira o sono, e eu sinto falta de dormir por uma noite inteira. Talvez você tenha feito alguma coisa comigo, dessas de magia, dessas de prender alguém. Talvez eu tenha feito para mim mesma um desses truques de não saber me desvencilhar de mais ninguém. O que sei, a única coisa, é que de agora em diante, todos os dias: não saber nada é sentir tudo.
abril 24, 2017
Delírio imediato de solidão constante

Que seus olhos não alcancem meus passos apressados para longe da sua casa rua à frente, sempre em frente. Que não descubra a coragem que não tive para parar, dizer que estava por perto e decidi trazer meu corpo cansado para o seu sofá em troca de uma conversa longa. Porque agora, sobre você, sou somente silêncio. Ou no máximo palavras entaladas na garganta. Então ando mais rápido, quase corro para longe do seu portão reformado com uma nova cor e tento esquecer que estive tão próxima a ponto de sentir um pouco daquele cheiro da sua sala de estar que tem sempre os móveis em lugares diferentes. Talvez, se eu tivesse me deixado bater palmas buscando curiosa sua presença dentro da casa, você teria se escorado no muro para falar displicentemente sobre o que nenhum de nós quer ouvir sem me oferecer um convite. Um convite para sua hora, seu dia, sua semana. E não sou mais capaz de ser quem não encontra espaço onde quer estar, portanto, percorro caminhos que não me devem nada, caminhos que são descobertas e a eles me faço pertencer. Se me avistar por essas ruas, por esse bairro, talvez até mais distante, eu ando me perdendo para não lembrar que uma vez me encontrei onde não devia.
Flávia Andrade
abril 23, 2017
Aos sóbrios as prosas

— Repete o finalzinho daquele poema do Drummond de novo, por favor — eu peço entornando a garrafa de vinho na taça que, a esta altura, foi esvaziada já umas seis vezes intercalada por duas bocas.
— Eu não devia te dizer, mas essa lua, mas esse conhaque...
— Vinho — corrijo apropriando-me do verso.
— Vinho — corrijo apropriando-me do verso.
— ... Botam a gente comovido como o diabo.
A estrofe sempre me dá um baque de verdade, como se eu me encontrasse ao lado daquele homem franzino e seus óculos e seus papéis de poeta para sentir a comoção da vida vilipendiada pela embriaguez.
A estrofe sempre me dá um baque de verdade, como se eu me encontrasse ao lado daquele homem franzino e seus óculos e seus papéis de poeta para sentir a comoção da vida vilipendiada pela embriaguez.
abril 13, 2017
Passado-presente

Eu sinto que nós podemos recomeçar. Trago um bocado daquela menina que conheceu na bolsa, trago comigo para você não pensar que tocar meu ombro e dizer seu oi musical mais uma vez foi engano. Mas trago de corpo, por inteiro, a nova pessoa com um quê de mistério que o afronta enquanto o vê se sentar meio incerto, meio duvidoso. É que daqueles anos pra cá vim me tornando certeza: olha quem sou. E de você espero umas mudanças, dessas que a gente nunca sabe o que esperar. Mas vejo mais cor nos seus lábios, como se nos últimos anos tivesse agarrado tantas bocas que sobrou na sua a ardência do prazer de todas. Não me desespera a sua falta de timidez de agora, ao contrário: dessa vez podemos ir, sem temer, àquela boate que anos antes passamos em frente com receio de que o segurança barrasse abaixando seus óculos escuros no meio da noite com o estilo do mundo e dizendo: comuns demais. A distância não nos mudou, quem o fez foi o tempo. E se distantes deixamos os anos passar, por perto não há mais hora para ficar contando.
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